10.7.11

Vai e Vem

Quando eu era espera nada era, 
nem chovia, nem fazia...
Só sentir que a calma,
não acalma quando só há solidão.
(Núria Mallena)



Texto pronto! - pensou ela - e sim, dizer "não" era o melhor a fazer. Sua imaginação havia ajudado a preparar argumentos para supostas defesas que ele ousasse falar.

Fecha os olhos e ensaia a tática! Concentração, fala "desimbestada" e pouca respiração para não correr o risco de esquecer ou mudar de ideia. Aquela situação não podia ser prolongada nem mais um dia, já tinha sido por tempo demais...

Sua respiração lhe dá a certeza de que o ar foi embora sem pedir licença. Parece que a dor que prevê sentir após a conversa vem antecipada apertando o peito. A espera faz dar voltas em circulos...

Deve chamar de ansiedade o desespero com que olhava debruçada no peitoral da janela, meio querendo que ele chegasse logo, meio tentando teletransportar a mensagem pra que ele nem sequer viesse. Num misto físico e emocional de boca seca, angústia, calor, frio, insônia e amor. Certamente as placas internas estão se confrotando.

Lembranças vem em turbilhão. Pensa em tudo que não mudaria e se esforça para equilibrar com o que podia ser diferente. Não importa. Não foi! Ela fez sua parte e ele não... Procura loucamente o orgulho que lhe resta. Todo ele, qualquer terço não basta. Força a memória relembrando tudo aquilo que lhe fez sofrer, ela precisa estar armada quando ele passar pela porta!

Busca no espelho expressões seguras. Aparentemente está...talvez não seja esperto contar quantos cacos tem por dentro. Ainda no espelho se apronta, se arruma e se reprime lembrando que ela não deve nem precisa estar bonita, não para ele. Lágrimas escorrem e são enxugadas automaticamente espantando o momento de fraqueza.

Pega o celular, uma conferidinha numa possível mensagem ou ligação perdida dele… quem sabe algum imprevisto. Quem sabe alguma mudança. No display não tinha nada...Por dentro gritava "não venha" e com tapinhas agresivos em si mesma acorda do transe percebendo a necessidade dele alí.

Deita na cama, tentativa anestésica. Olhos fechados. Pensamentos distantes. Eco de uma frase da comédia nacional De Pernas pro ar assistida dias antes: "Chegou disposta a discutir e ele chegou disposto a fazer as pazes. Você se fez de difícil e ele se fez de romântico. Ele disse que não vive sem você e você acreditou. E o melhor, nem ele nem você tiveram coragem de falar neh?! Afinal, o importante é que vocês fiquem bem em nome do amor..." Não! Não mesmo! Na pele aquilo não tinha graça e não poderia acontecer. Ela falaria tudo!

Tentou negar o barulho de portão que seus ouvidos escutaram. Mas era fato, ele chegou! Maldito universo, inimigo conspirador...Nenhum tremor que tivesse lhe tomado antes havia sido maior que aquele quando seus olhos se bateram nele. Lembrou outra cena do filme... ela tinha que ser outra mulher, porque não era possível que ele estivesse mais lindo, mais atraente... respira, respiração rápida para espantar aquela sensação física que queima antes que ele se aproxime mais.

Em sua direção ele caminhava e no seu olhar muita coisa, menos falta de amor. Desesperadamente ela começa a falar, despejar, entala. Péssima atriz. Tão insegura, tão artificial! Mas ainda assim acreditava que houvessem forças ocultas lhe impulsionando naquele momento...

Enfim consegue dizer tudo que pensa, ou planejou, sei lá...

Mas ele, como sempre, ele pareceu não escutar… embora não tivesse desviado o olhar dela nem por um segundo como se esperasse apenas que aquele derramamento de palavras terminasse.

Chegou a vez dele. Observando, ela espera uma reação. Sim, ela deixaria que ele se mansifestasse também. Havia ensaiado anestesia para este momento. Mas ela continua observando e o silêncio dele não dá as respostas que ela esperava...

Ele somente se aproxima mais, chega bem mais perto. Afasta um pouco a franja dos olhos dela e de forma suave deixa a mão escorregar afagando sua face. Ele lhe equilibra sustentando sua cintura. Ela abaixa a fronte, fecha os olhos, se esforça internamente para afastar-se, ele não deixa.

Você não vai dizer nada, certo? - não havia pensado em nada mais certo naquele entardecer - “Não pense!” – e um beijo trouxe a sensação de recomeço - a ordem dele havia sido suprema, nenhum pensamento sequer ousou atordoá-la. Nenhum esforço, quem dirá tentativa de fuga...

Possivelmente ela volte a pensar, mas não antes de estar a quilômetros de distância da possibilidade daquele beijo.



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