27.1.13

É fogo. ૪



Veio lá do sul mas me aqueceu enquanto escutava Legião aqui no recôncavo da Bahia. Não conhecia ninguém de Santa Maria, mas tínhamos coisas em comum: somos tão jovens!

Estava achando ruim ser jovem e ter que somente seguir em frente pois a faculdade não me permite mais tempo a perder. Aqueles duzentos e quarenta e cinco jovens, maioria em faixa etária entre 16 e 25, cientes da juventude, já não têm tempo. Cento e trinta e um dentre aqueles mais de mil e quinhentos - sendo mil a cota aconselhável para o local -, são cicatrizes e traumas.

Entediada por passar mais um final de semana em casa, dormi às 2h da manhã, hora que começava o incêndio que viria se acalmar somente às 5:30h, e eu ainda dormia com todo tempo do mundo. Acordei e não tenho mais o tempo que passou, mas tenho o que não tem mais aqueles dois rostinho lindos que admirei no Face, felizes ao estarem partindo juntas em mais um sábado de diversão, e também aquele outro, que em meio ao pânico pediu socorro e foi sua última declaração.

Para aqueles jovens dentro da boate Kiss, que curtiam a vida e novas experiências, as amizades e oportunidades, a alegria de poder realizar um sonho, arrecadar dinheiro para formatura, constituir novos relacionamentos, que talvez economizaram dinheiro planejando estar ali, certamente admiradores do trabalho de Gurizada, banda regional e agora enlutada por um integrante...para esses jovens não há mais tempo no mundo. Sério e selvagem!

Está quente aqui, mas o calor de lá veio em forma de tempestade de fumaça, e trouxe pavor, dor, terror, horror...27 de janeiro de 2013. Mais um marco de tragédia de início de ano no Brasil. E o céu dessa manhã está cinza, sim! não escuro, mas com luzes apagadas. Bombeiros apagam o fogo mas não as chamadas-não-atendidas dos pais que esperançosos não acreditam que não verão seus filhos regressarem para casa ou mesmo, visitarem no próximo final de semana, nas próximas férias. Algumas famílias não tem condições financeiras de deslocar seus corpos.

E a cor dos olhos? não veremos mais brilhar. Não dá pra simplesmente fechar os olhos, fazer piada e deixar pra lá. Há necessidade de mudar tantas estruturas, manutenção de equipamentos, levar segurança a sério e prestar atenção na precaução. Há necessidade de mobilização e alerta, de ajudar sem olhar a quem. Há necessidade de espaço, de enfermeiros, psicólogos, médicos, garrafinhas de águas, luvas, comunicação... Há necessidade de consolo, de apoio. Não temos mais tempo para a incopetência, negligência, corrupção. Acabaram as coroas de Flores na cidade do sul! Não havia tempo para confiscar o comando de pagamento para depois permitir evacuação. Não é medo de lugares fechados, de lugares lotados ou de diversão que temos que ter não.

Deitada na minha cama, perco a concentração para reflexão, meu corpo, intacto e inquieto não relaxa, sufoca, perde o ar... são corpos como o meu, lá, inativos, imóveis, sem vida, sem sonhos, perspectivas, sem futuro, sem tempo - sem saída! As portas eram estreitas demais no local que pagaram pra entrar. Partiram mais homens que mulheres, pra não voltar. Era asfixia não carbonização - não era mais um show pirotécnico. Partiram e por horas continuaram não identificados por lá.

Aqui estou em casa, lá, num Ginásio Municipal, estão pais, irmãos, parentes e amigos, todos aqueles que agora encontram e velam corpos queridos, aqueles que queriam voltar no tempo para não ver alí estirado quem vai virar lembrança e não fará mais as próprias.

Não tenho como abraçá-los forte e dizer que isso é pesadelo, estou distante de tudo - Me calo. Os jovens, no seu próprio tempo, quem sabe eterno... não têm mais tempo de fazê-lo, de beijá-los, de levantar meio-dia, de contar o melhor da noite passada.

A noite não foi tempo perdido, mas eram tão jovens!

#RIP




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