23.6.13

Desvaneando a aliança do meu vô

 Sempre quando encontro meu vô, involuntariamente dou aquela checada na aliança dele.

Cara, vocês não sabem a sensação de ver aquilo: uma coisa larga e brilhante que desde que me conheci por gente e me permitir observar está naquele mesmo lugar, e já estava ali por muitos anos. Parece tatuada, perdida e bem achada naquela mão vivida, cabeluda, de pelo lisinho e esbranquiçado, de pele não mais tão firme quanto costumava ser...

Quando meu avô percebe que ela é observada ou em alguma circunstância ela entra em pauta, se apressa em regozijar: para tirar aqui só cerrando! - O riso do meu avô é doce e encantador, nada parecido com aqueles velhinhos carrancudos. Seu riso é realmente um vislumbre quanto descoberto por baixo daquele bigode sempre bem feito e que causa leve movimentação naqueles cabelos escorridos, sempre ajeitado no gel, e que tem um pente a seus dispor ao alcance do bolso da camisa.  E eu só consigo fazer ideia do quanto soa vitorioso terem chegado até ali, com um casamento arranjado, com imagináveis dificuldades e descobertas que tiveram que fazer enquanto companheiros um do outro.

A aliança, cheia de simbolismo, simplesmente me cativa pelo uso. A dele é antiga, o ouro todo riscado, esfolada de aprontar com o facão naqueles pastos, lavar seu saudoso fusca verde musgo, de cultivar sua amada roça de cacau, de criar sete bem-sucedidos filhos... mas ainda assim tem lá seu brilho.

E eu me pego hipnotizada pensando o quanto eu queria uma igual, sabe?! Para ser gasta, testada. Para ser envelhecida, virar anciã, adquirir sabedoria. A dele fala comigo, exala confiança em vida e a certeza de que nem a morte o faria trair, ainda que só ela permanecerá ali enquanto ele viver.

A minha pode ser mais diferenciada, atualizada, espero! Mas que seja teimosa da mesma forma, que jamais saia do dedo anular. Não sai nem pra banho nem em possível viuvez. Um circulo cativante e que me deixe cativa. Ciclo que não dê pra determinar início ou fim. Fiel ao corpo, ao coração, guia do tesouro na terra.

Um tipo de aliança que acalma a respiração, que tem bodas e mais bodas, daquelas que se costuma comemorar. Eu lembro de participar guria das bodas de ouro dos meus avós. E aquilo significa vontade vivida por anos, escolha renovada, promessa incansável, compromisso carregado por opção.

Tem gente que corre de uma aliança como cão da cruz, outros que afirmam que aliança é ímã para assédios constantes, mas... Eu sei que não é a aliança em si que trás fidelidade, assim como não é nenhum escudo para infidelidades - somos nós devemos a proteger e à sua representação.

Quando temos em vista que a aliança não é um fim, quando alguém é o motivo que nos faz desejá-la, torna-se parte de nós, necessária! Algo dentro de mim estranha alguém que retira a aliança para qualquer coisa, qualquer briga, qualquer desculpa, esquece em casa, mesmo que seja em trabalho de risco... é como se alguém casado instantaneamente ganhasse mais um órgão para ser identificado como digital.

Aliança não é taxativa. Não significa que estamos definidos, mas entendo como uma espécie de fechar pra balanço, sair da vitrine de disponibilidade. Continua sendo a liberdade de estar com alguém, a admiração demonstrada através da mão e estendida em tudo aquilo que ela permite enxergar. Ela exibe uma crença!

Olho para a gesticulação do vô Tomaz enquanto sabiamente fala frases curtas e vejo alianças. Atento pra seu riso frouxo, meio irônico e vejo alianças. Ouço suas histórias, repetidas ou não, cheias de sotaque e experiências, vejo alianças. Sinto admiração pela personalidade calma e paciente, homem de bem e admirável que é, vejo alianças!

Penso em nós, seus netos, ao seu redor, e vejo alianças - nos joelhos de ciclistas e patinadores, nas mentes com tanto a se desenvolver e tantas incertezas pela frente, nos corações que têm exemplos definitivos para amar... - fazemos círculo, somos esferas, ensaiamos alianças. Alianças dilatadas no olhar!

O que é o valor de uma joia perto de uma aliança? O valor está na promessa afirmada em três letras através de duas bocas. Muito mais que um anel, é a chave do firmamento de duas almas!

0 Comentários:

Postar um comentário

 
- See more at: http://www.ecleticus.com/2011/10/slide-que-funciona-automatico-no.html#sthash.CKrB3I8o.dpuf