23.4.14

Quando não cura

A banda mais bonita da cidade disse que o jeito é deixar doer pra ver se sara. Enquanto há dor, algumas pessoas requisitam métodos paliativos para fazê-los antídotos, outras vão com as ondas se motivando a seguir em frente... 



Cena Em Família com diálogo reparando aqueles que não conseguem superar uma derrota afetiva.
(Sobre irmão e tio bebados)
Clara - Meu irmão é doente, Kadu, coitado! Agora o Nando, isso aí é dor de cotovelo, tem cura, isso passa...
Kadu - Nem sempre. A dor de um amor perdido pode ser incurável também. Só que ao contrário das doenças físicas todo mundo menospreza, acha que o sujeito é um derrotado, um incapaz. 


É que o que marca, o que é sentido, volta e meia remexe, bagunça por dentro, de todo mundo, inclusive de quem segue em frente. Seja com um encontro inesperado, com lembranças insistentes, num momento desprevenido, vem à tona... e não há quem se recupera da veracidade de um sentimento!

É que quando a gente é impulsionado (sem desejar) a seguir em frente, carrega o medo de passar por frustração outra vez e se decidir se entregar é em meios termos, com receios e sobressaltos capazes de prejudicar um envolvimento após outro. A água que hidrata o coração que amou não volta a ser cristalina. É como um fluxo: fora do caminho ou o rio seca ou transborda pra não caber mais. Alguns bem sabem que rancor ou inquietação é uma forma desesperada de abafar sentimento.

É que quando é amor, ele não quer saber se foi uma vida ou apenas dias bem vividos, ele te faz se desconhecer pra entender que existem parceiros, pares, pessoas que valem a pena, mas somente um alguém capaz de fazer sorrir, fazer chorar e continuar ocupando a mesma posição - incompreensivelmente. Não a posição de um deus perfeito, mas de alguém que foi aceito pelo coração com a soma dos defeitos, e assim te tornou alguém melhor, alguém que você gosta de ser e de amanhecer sendo a cada dia, mesmo que você tenha se transformado em marcas, saudades e lembranças fáceis.

Eu não costumava acreditar em alma gêmea por uma questão de justiça para com aqueles que não cruzam com ela em seu destino, mas passei a acreditar em amor eterno quando percebi a insistência do elo entre memória e coração. Percebi que amor não dá pra ser dividido em qualquer cargo ou consecutivo em alguma função, ele é uno, sentença.

Veja bem, como amor de pai, amor de mãe, amor de irmão, vô, cachorro... amar é individual e intransferível. Para qualquer suplente há uma forma diferente de gostar. Uma vez ri quando minha mãe disse que se um casamento é assumido por amor, só existe amor de marido ou de viúva. Compreendi que perante Deus e a sociedade ou não, quando houve amor, ocupantes futuros são companhias ou acompanhantes prazerosos.

"Amores de antes" é apelido de ensaios, por Jorge Vercilo. Porque amor de fato é aquele em que se que se estaciona. E há quem estacione sozinho no amor, mesmo porque ele não pode ser prejudicado, não se espera nada em troca, nem mesmo que a pessoa esteja ao lado.

 É que quando o amor nasce, morre com a gente... eu prefiro não questionar a forma de amar, mas creio que quem afirma amar mais de um na vida ou ao mesmo tempo, vive sem conhecer o amor, trocando-o por apego, interesses e envolvimento.

Amor que é amor de verdade chega assusta quando se instala. Como um velho guru eu sempre hei de requisitar Carpinejar: "O amor é a mais cruel sobriedade... O homem de sua vida ou a mulher de sua vida não vai se apaziguar ao seu corpo e acordar junto na primeira noite. Isso é para os seguros de si, os confortáveis em seus sentimentos, os canalhas, os cafajestes, os sedutores".

Por fim,  não acredito que amar seja raro, mas desejo que a cada um que encontrar o amor, que o tenha como firmamento para não carregá-lo como tormento.

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