22.7.14

Sobre fãs e liberdades: não se confundam!

 
Crédito: Botequim Cultural

Sou daquele tipo de gente que prefere dar “chance” às pessoas... mas, se acreditasse em santo teria certeza que o meu nunca bateu com o de Roberto Carlos. Se por gênio, aura, sei lá quais as “tantas emoções”, o “cara” nunca desceu.

Desce pra muita gente e evito falar mal. Apenas não dou minha parcela de audiência. Um fato, no entanto, me fez segurar a vontade de falar “Ahá, ele nunca me enganou!” e declarar que o título de Rei ele carrega é bem na barriga. Me permito contar o caso:

Pois bem, Paulo César de Araújo, já ouviram falar? É um jornalista e historiador brasileiro que se tornou referência no que diz respeito à música popular brasileira com o livro Eu Não Sou Cachorro, Não - que traça um paralelo entre a ditadura e os cantores considerados "bregas" da época -, mas ficou nacionalmente conhecido ao escrever Roberto Carlos em Detalhes, biografia não-autorizada do cantor brasileiro lançada em dezembro de 2006 pela Editora Planeta.

Resultado de uma pesquisa ao longo de 16 anos, com depoimentos de cerca de 200 pessoas que participaram da trajetória de RC, o livro de 504 páginas simplesmente causou “ irritação” no cantor, sem que ao menos tivesse tido a educação de ler ou citasse os “incômodos”. Desta forma, a obra que chegou a vender 22 mil exemplares, após disputa judicial, teve produção e venda proibidas em 2007, por determinação pela 20ª Vara Criminal da Barra Funda, na cidade de São Paulo.  
Depois da proibição do livro naquela audiência, o repórter perguntou para o advogado dele: “doutor Marco Antônio Campos, Roberto leu o livro?”. Ele falou: “não, até agora Roberto não leu o livro, nós lemos e apontamos alguns trechos para ele”. O próprio Roberto, lá na primeira coletiva, disse que não tinha lido o livro. Disse que estava descontente, chateado, triste, mas que não tinha lido o livro ainda.
Dias desses acordei ouvindo no rádio uma entrevista do Paulo, e ele falava de um novo livro, O Rei e o Réu: Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes (Companhia das Letras), em que ele fala sobre a polêmica proibição da Biografia sobre o dito Rei. Dimensiona a estupidez autoritária de Roberto Carlos, que conseguiu proibir e recolher das livrarias uma obra escrita por um fã - veja que irônico! O livro acaba se tornando uma defesa incisiva da liberdade dos biógrafos e do conhecimento do leitor.

Olha como as coisas não mudaram: O livro foi lançado em maio deste ano e ainda há temor. Advogados afirmaram que "O Réu e o Rei" é autobiografia do autor e não contém invasão de privacidade ou difamações e, dessa vez, Roberto não ficou “irritado”, li em reportagem. Ou seja, dessa vez RC não tomará qualquer medida jurídica em relação ao livro, mas ele pode!
Roberto é uma instituição nacional. Eu prefiro ver assim. Por isso que ser processado por Roberto Carlos é algo difícil. A sensação que eu tenho é a que teria se estivesse sendo processado pelo Carnaval brasileiro, pela Seleção ou pelo bumba-meu-boi. É um peso. (...) Perguntaram para Roberto Carlos, acho que em 2010, sobre os livros. Ele falou: “estão em um lugar que não me incomodam, talvez eu os guarde para sempre”.
Do “Rei” não esperava diferente – juntou um perfil* complexo mais bajulações de décadas, não há estrutura psicológica que não ceda à ilusão. Tinha que vir dele mais uma das tantas censuras brasileiras, demonstração de autoritarismo e das limitações legais do país que tem “livre expressão”... Disse: “a minha história é um patrimônio meu, eu que devo contar a minha história quando eu quiser”, pedindo não só a proibição, como também 500 mil reais por dia e a prisão de um profissional e fã, veja só! Ouvi dizer que o modesto está escrevendo essa biografia há trinta anos, diz isso desde os anos 1980, vai que sai e, o pior, ainda vai ter quem queira ler!
*Eu acho que o que o incomodou foi a existência do livro não autorizado, uma biografia que chegou com força no mercado, que foi capa de todos os segundos cadernos e revistas do ramo. Desde 1965, ano em que Roberto lançou “Quero que Vá Tudo Para o Inferno”, a luz não acende se ele não manda acender, não apaga se ele não manda apagar. Ele é uma figura obsessiva-compulsiva. Tudo acontece sob o controle dele. (...) Ele vive assim pelo menos desde 1965, nessa redoma, com tudo sob controle. De repente, surge um cara que ele não conhece, escreve sobre a trajetória dele numa obra de fôlego de 504 páginas.
O autor? O considero hoje, porque no seu novo trabalho não deixou de valorizar a obra do cantor e compositor que por tanto tempo admirou, mas não poupa o sensor.  Sua paixão, que começou ainda na infância, lá em Vitória da Conquista/BA, quando com 11 anos e sem condições de investir 10 cruzeiros para assistir a apresentação da celebridade ficou rondando o estádio, desde então não foi “reconhecida” nem teve brechas oferecidas pelo objeto de estudo – toda sua dedicação, sua determinação, sua admiração, seu esforço, nada! É apenas um mero súdito... ou deveria ser.

Ainda não li o livro, mas fiquei ansiosa, quero saber minúcias do processo montado contra o escritor, com todas as imprecisões e distorções possíveis pelo velho ditado “manda quem pode”. Quero ler a reconstituição que Paulo faz da tarde em que, enfim, teve o “prazer” de ficar frente a frente com o ídolo, num fórum de São Paulo, abandonado por seus editores e pressionado pelos advogados. Aceitou assinar um acordo por livre e espontânea vontade, claro!

Pesquisando mais encontrei lá no Perdidos no ar uma entrevista transcrita bem parecida com a que ouvi,  e coloquei algumas citações diretamente com relatos autor.  O Paulo faz parte de um grupo de escritores que está sendo representado pela Anel, que move uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal, pela mudança do artigos 20 e 21 do Código Civil, que limitam a publicação de biografias e esta não é uma história, uma luta, uma causa para esquecer. Vale lembrar também que nem sempre os ídolos merecem os fãs que têm...




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