25.11.14

Respeito e estabilidade na vida das crianças



"O que você tá fazendo aqui?", perguntei para uma gatinha de 5 anos que esperava vibrante na portaria do condomínio. "Esperando a 'mãe 2' da Talia me buscar", ela respondeu. Embora já pudesse imaginar, tirei teima: "Mãe dois?". Com toda naturalidade do mundo a Bia respondeu: "é, a Talia tem duas mães".

Achei aquilo legal pra caramba, sabe?! Porque as crianças apenas compreendem o amor e cuidado, enquanto muito se discute sobre kits escolares, informação apta para faixa etária infantil, datas comemorativas para pai-mãe ser trocada pelo dia da família - que abarca não somente as crianças adotadas por casais homossexuais, mas também àquelas que, por algum motivo, não tem pai e/ou mãe, ou foi criada por outro grau de vínculo familiar.

A Bia poderia enxergar a Talia como um E.T., se a professora não comunicasse normalmente que na família da Talia existem duas mães, ao invés de pai e mãe. A Bia poderia enxergar a Talia como um E.T., se seus pais tivessem receio que sua pequena, com caráter em formação, tivesse contato com a "diferença" proposta pela família da Talia.

Não conheço os pais nem a escola dessas meninas, mas não falta à elas informação, não falta a eles respeito e compreensão. Para os seres que ainda não "aceitam" e as escolas que ainda tratam o assunto como tabu, eminentes leis de igualdade inquietam sim, levantam ânimos preconceituosos. 

Naquele fim de tarde ouvi gritos no pátio. Reparei pela janela e a Bia tinha voltado para casa na companhia da Talia, que provavelmente iria passar a noite na casa da amiguinha. Não duvido que os pais delas tenham convicções diferentes, mas ensinam a suas filhas a conduta, respeitando também as escolhas delas. Afinal, não há muitas histórias felizes de pais que tentam interferir em amizades ou relacionamento de seus filhos, não é verdade?! 

Deu saudade da minha infância, de todos os "tios e tias", pais de amiguinhos que sempre me receberam muito bem para tarde de "babado, confusão e gritaria", fora as noites de diversão prolongada. Me senti grata, por meus pais que me ensinaram a respeitar todas as pessoas e me propuseram uma infância maravilhosa. Aos pais da Bia e as mães da Talia, parabenizo por lhes oferecer uma infância como deve ser.

Crianças se desenvolvem melhor em ambientes onde não fiquem submetidas a mudanças emocionais constantes e perturbadoras. Dia desses ouvi uma mãe recém separada gritar para o filho de três anos: ''seu pai é um burro, sabia? me deixou por aquela ordinária e merece todo corno que receber". Não tenho filhos, mas posso imaginar o estrago de lidar desde cedo com intrigas de uma mãe magoada e a rotatividade de parceiras românticas do pai.

Quando sociólogo afirmam que "casamento é excelente para os filhos", não é porque consideram a entidade "sagrada", mas porque há uma pretensão de estabilidade, uma vez que tradicionalmente é a partir dele que se busca constituir uma família. Talvez, para o menininho cuja situação relatei, fosse melhor, psicologicamente, viver com um casal que a "sociedade" ainda não aceita, mas que se respeita, do que conviver com pais biológicos que desfizeram o compromisso público e religioso assumido de forma que restam tantas arestas. 

As crianças precisam é de constância e familiaridade. Casais não casados, pais solteiros, avós e casais gays, sim, podem criar ambientes calmos e estáveis para que as crianças evoluam com menos problemas.

Obrigada dia e noite à minha família por amenizar meus estragos. Nunca tive que conhecer a namorada nojenta do meu pai, os natais aconteciam sempre na casa dos avós sanguíneos, até a babá era constante em cobrar de mim o cumprimento dos deveres de casa e do mundo o silêncio para colaborar com minha concentração. Não tive que me preocupar com os sofrimentos de família, completei o ensino médio no tempo propício e costumo escutar: "tão novinha para ser pós-graduada"...

Obrigada Deus! O que seria de mim se não fosse minha base, minha família unida e respeitosa?! Acredito que moral seja algo a ser decidido individualmente, em casal, em família, com seu Deus. Como cristã, afirmo que Ele não só defendeu a minha liberdade como o arbítrio de todas as pessoas. Além disso, creio que não são as leis do cristianismo que definem as juridições de um país democrático e laico, nem devem ser!

Eu acredito que a humanidade pode viver o respeito e a aceitação das diferenças na prática, há exemplos! Obrigada a todos que compactuam com isso. 

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